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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

É possível uma favela sem traficantes?

Juan Arias, no El País

Desde agora até 2016, ano dos Jogos Olímpicos, as autoridades cariocas têm diante de si um desafio histórico: a pacificação de, se não todas, ao menos as principais e mais violentas das 1.020 favelas do Rio, que abrigam cerca de 2 milhões de habitantes, um quinto da população total, que supera os 10 milhões.

As primeiras atuações do governo brasileiro nesse sentido são positivas. Em umas seis ou sete favelas, os traficantes de drogas saíram depois da ocupação permanentemente das forças policiais, que antes subiam os morros somente em operações especiais para combater o tráfico.

Sem dúvida, os problemas são muitos e de difícil solução, como reconhece César Maia, que foi prefeito do Rio em diversas ocasiões e é um profundo conhecedor dos segredos da cidade.

Em primeiro lugar, é necessário — como já foi feito na Colômbia — fortalecer a segurança e a vigilância nos arredores das favelas pacificadas. De outro modo, os traficantes mudam-se para outras zonas da cidade, levando consigo a violência que, antes, exerciam nas favelas. Isso já tem ocorrido nos últimos meses, por exemplo no bairro de Copacabana, que se transformou em cenário de uma autêntica guerrilha urbana, com traficantes obrigando comerciantes a fecharem suas lojas.

Outro ponto chave é conseguir que nas favelas pacificadas não diminua o índice de crescimento econômico, algo que afeta diretamente os seus habitantes que, muitas vezes temem mais a força bruta da polícia - que, segundo eles, só gera mais violência - que a dos traficantes. Porque estes, frequentemente, acabam convertendo-se em mecenas dos mais pobres, oferecendo ajudas concretas, como serviços públicos gratuitos, atendimento médico, ambulâncias, etc.

Ao mesmo tempo, a presença dos traficantes nas favelas, com seus pontos de venda de drogas, favorece uma atividade econômica em bares, lojas e locais de diversão. Inclusive, chegam a patrocinar festas para os jovens. E permitem a eles ter luz, acesso à Internet, gás... gratuitamente. Tudo isso deixa de ser possível quando entra o Estado e, com ele, a legalidade.

Segundo alguns analistas, ao mesmo tempo que expulsa os traficantes das favelas, o governo deveria dar às famílias compensações econômicas, tais como a tão desejada propriedade de seus barracos que, em muitos lugares, chegam a ser verdadeiras casas. Com isso, seus habitantes tornariam-se cidadãos de fato, capazes de ter um endereço de correio e de abrir conta em banco, já que passariam à legalidade. Vários programas anunciados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sobretudo quanto à criação de infraestruturas de caráter social e desportivo, caminham nessa direção.

Alguns dos habitantes da Cidade Partida, como batizou o Rio de Janeiro o escritor Zuenir Ventura, os que vivem debaixo das favelas, os privilegiados, estão contentes com os esforços de pacificação desses bairros pobres e até se emocionam com a possibilidade de visitá-los sem perigo. O grande temor se expressa na pergunta que fazem os cidadãos, através de muitas cartas dirigidas aos jornais: por que as autoridades, ao invés de expulsar os traficantes das favelas - que acabam indo para outros lugares da cidade -, não os prendem e julgam?

Matéria traduzida e editada pelo RA.

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