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domingo, 19 de março de 2006

Tudo sobre o 'compositor' João Gilberto

Ando comprando cada vez menos jornal. O motivo é óbvio: na Internet, além da possibilidade de ler jornais do mundo inteiro quase na íntegra (e de graça!), as notícias nos chegam a todo instante através do monitor. Tudo ao mesmo tempo agora. E tão rápido que, no dia seguinte, as manchetes dos jornais impressos parecem todas muito antigas, de dois, três dias atrás. Por isso, para não perder o hábito, resolvi comprar jornal apenas aos domingos. A escolha entre a Folha, o Estadão, o Globo e o JB é feita previamente na Internet. Depois, busco na banca aquele que tiver as matérias que mais me chamaram a atenção.

Hoje, optei pelo JB por causa da reportagem de capa da revista Domingo. É sempre bom saber o que anda fazendo o misterioso e 'invisível' João Gilberto. Decepção total e absoluta! Sem nenhuma novidade para contar aos leitores, o repórter da revista se limitou a descrever o pedaço do Leblon onde mora - ou melhor, se esconde - o João. E tome-lhe fotos de fachadas de bar, de restaurante, de pizzaria e dos supostos pratos preferidos do músico. Para temperar esse cardápio pra lá de insosso, alguns depoimentos de pessoas que juram ter visto, um dia, o mito em carne e osso. Chega a ser hilário: um jornaleiro conta que viu o João tomando chope no bar da esquina; um vizinho afirma ter descido uma vez com ele no elevador; um lojista diz que o viu saindo do prédio à noite carregando o violão. Sen-sa-cio-nal!

A última parte da matéria é dedicada a uma resumidíssima biografia do músico, ilustrada com as capas de alguns de seus principais discos. Novamente, nenhuma novidade para os fãs ou para quem leu "Chega de Saudade", do Ruy Castro. Para falar a verdade, a única novidade de toda a reportagem está na capa da revista, nesta chamada:

"Morar ao lado do compositor custa apenas R$ 120 mil por 30 meses"

Deixando de lado o valor do aluguel do apartamento (módicos R$ 4.020 mensais), chamar João Gilberto de compositor denota, no mínimo, falta de intimidade com a carreira do inventor da bossa nova. Isso porque João se tornou conhecido em todo o mundo pelo jeito diferente de cantar e de tocar violão. E sempre interpretando músicas de outros músicos, como Dorival Caymmi, Noel Rosa, Geraldo Vieira, Caetano Veloso, Gilberto Gil e, claro, Tom Jobim. Não que ele nunca tenha feito uma música. Em seu primeiro disco (o antológico 'Chega de Saudade') tem, por exemplo, 'Bim Bom', uma brincadeira perdida em meio a pérolas de Carlos Lyra, Vinícius de Moraes, Ary Barroso e Ronaldo Bôscoli.

Definitivamente, compor não era a sua praia e João Gilberto sacou isso desde cedo. Por isso, o mais correto é chamá-lo de músico, simplesmente. Tal e qual está estampado ao lado de sua foto, no miolo da Domingo. Aliás, belíssima foto, ocupando uma página inteira da revista. Taí: valeu comprar o JB hoje só por causa dessa foto. Pena que não colocaram o crédito do fotógrafo (ou da sua agência)... Pensando bem, no próximo domingo vou restringir minhas opções de compra a apenas três jornais.

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1 Comments:

At 20/3/06 10:50, Anonymous acacio alves pinto said...

Oi, Otacílio.
Há dias sem comentar, deparo com sua bem fundamentada crítica do interessante criador da bossa nova. Parece-nos que João Gilberto está meio parado por que os anos se acumulam e pesam em nossa maneira de ser e de agir. De qualquer forma, João Gilberto é um dos mitos brasileiros reconhecidos internacionalmente e que fazem o Brasil aparecer. Continúi com suas criticas bem feitas para nosso gáudio e ilustração. Abração.

 

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