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quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Ainda fundamental, "On the Road" faz 50 anos



Do New York Times

Entre os livros mais vendidos nos Estados Unidos em 1957 estão "Peyton Place" ("A Caldeira do Diabo", em português), de Grace Metalious, e "On the Road" ("Pé na Estrada"), de Jack Kerouac.

Ambos foram marcos culturais: "Peyton Place" como um precursor da moderna novela de televisão e "On the Road" como conclamação à Geração Beat e, mais tarde, como a bíblia underground das décadas de 1960 e 1970. Hoje em dia "Peyton Place" é visto pela maioria dos especialistas como uma mera curiosidade histórica, mas "On the Road", que comemora os 50 anos da sua publicação, ainda conta com uma vida vibrante nos currículos dos cursos de inglês nas faculdades e nas listas de leitura de verão das escolas de segundo grau, bem como nas mochilas dos jovens viajantes.

"É um livro que envelheceu de uma forma legal", afirma Martin Sorensen, gerente da livraria Kepler's Books and Magazines em Menlo Park, na Califórnia. "Um número 'notável' de cópias ainda é vendido todos os anos na loja. Certamente mais do que a média para um livro de 50 anos de idade".

O autobiográfico "On the Road", um fluxo de consciência, segue Sal Paradise (um personagem baseado em Kerouac) e Dean Moriarty (baseado em Neal Cassady, amigo de Kerouac) enquanto eles ziguezagueiam pelos Estados Unidos, bebendo, ouvindo jazz e paquerando.

A editora Viking está lançando uma edição de 50 anos de aniversário do livro na próxima quinta-feira (o original foi lançado em 5 de setembro de 1957) e está publicando, pela primeira vez em formato de livro, a versão original que Kerouac datilografou em um pergaminho de 36 metros de comprimento, juntamente com uma análise feita por John Leland, um repórter do "New York Times", intitulada "Why Kerouac Matters: The Lessons of 'On the Road' (They're Not What You Think) ["Por Que Kerouac Tem Importância: As Lições de 'Pé na Estrada' (Elas Não São Aquilo que Você Pensa)"]. A editora Library of America incluirá "On the Road" em uma coletânea de "romances pé na estrada" de Kerouac que será publicada no mês que vem. E a Biblioteca Pública de Nova York prestará homenagem ao autor em novembro com uma mostra do pergaminho original e outros materiais do arquivo Kerouac.

Embora grande parte desse material atraia principalmente os aficionados da Geração Beat, "On the Road" continua tendo uma ampla importância cultural, especialmente para os jovens. Devido em parte às tarefas escolares, cerca de 100 mil cópias do livro são vendidas anualmente em várias edições em brochura, segundo a Viking. E embora a sua era como a bússola padrão da contracultura possa ter terminado (é difícil continuar sendo um militante da contracultura quando se é exibido em propagandas da Gap, como ocorreu com a imagem de Kerouac na década de 1990), o livro durou muito mais do que vários outros clássicos do cult.

Parte do motivo para que o livro mantenha-se firme e forte é o fato dos artistas populares continuarem a citá-lo (a produção de uma nova versão cinematográfica, dirigida por Walter Salles, que fez "Diários de Motocicleta" ["The Motorcycle Diaries", EUA, 2004], deverá ter início no começo do ano que vem). Todo mundo, de Bob Dylan aos Beastie Boys, foi inspirado por Kerouac.

Mais recentemente, o Hold Steady, um grupo de indie rock, citou "On the Road" no seu álbum "Boys and Girls in America". "Com a sua imagem de bad boy e a ética de trabalho irrestrita, Kerouac é como a versão rock and roll de um escritor", afirma Joe Landry, 31, o vocalista da banda Antecedents, de Portland, no Oregon. Assim como diversos outros grupos, o Antecendents aponta Kerouac como uma das suas influências na webpage da banda no MySpace.

Erick Barnum, gerente da livraria Northshire Bookstore em Manchester Center, no Estado de Vermont, diz que sempre mantém seis exemplares do livro à mão, um número bem superior ao de outros livros tão antigos. "Esse é um livro que a livraria precisa ter nas prateleiras, ou então alguém vai gritar: 'Como é que vocês não têm On the Road, de Kerouac?'", diz ele.

Mas ter o livro disponível pode ser difícil: entre os membros do universos dos livros, "On the Road" é conhecido por ser um alvo freqüente de furtos, afirma Robert Contant, um dos proprietários da livraria Saint Mark's Bookshop, em Nova York.

Contant, que diz ter vendido 36 exemplares do livro desde março - um número que "a maioria dos escritores contemporâneos invejaria" - mantém os livros de Kerouac guardados em uma caixa perto do balcão de informações, de forma que eles possam ser monitorados pelos funcionários. "O livro tem um grande valor nas ruas devido à imagem marginal", diz ele. "E para os jovens que vêm para Nova York existe uma idéia romântica a respeito da era beatnik".


Pergaminho original de "On the Road", com 36,5 metros de comprimento

Penny Vlagopoulos, uma aluna de pós-graduação da Universidade Columbia (universidade na qual Kerouac estudou), que dá aulas sobre o livro lá e na Universidade de Nova York, diz: "Ainda acho que esse romance é um rito de passagem. Toda essa idéia da liberdade da estrada aberta ainda está bastante viva para os jovens".

Michael Heslop, 30, diz ter lido "On the Road" pela primeira vez como aluno do último ano do segundo grau e que relê o livro de dois em dois anos. Em 2004, ele abriu o Kafe Kerouac, um café, loja de discos, livraria e espaço de apresentações artísticas em Columbus, no Estado de Ohio. "Eu queria que o nome do estabelecimento fosse o de um escritor norte-americano que eu admirasse", conta Heslop. "Jack Kerouac parecia ser a essência do café independente underground, mais do que Hemingway ou Mark Twain". (Ele também serve uma curiosa bebida Kerouac, à base de avelã, menta e leite. "É difícil batizar café preto puro com o nome de alguém", diz Heslop.)

Em verdadeiro estilo beat, o Kafe Kerouac organiza sessões de leitura de poesias e de apresentação de músicos, e atrai uma multidão de universitários. Nina Hernandez, 23, uma funcionária do café, leu "On the Road" pela primeira vez um ano atrás.

"Gosto do fato de ele não ter se norteado por regras. Ele simplesmente colocou todas as convenções de lado e escreveu aquilo que estava pensando", diz ela.

Mas Hernandez, estudante de engenharia industrial, também diz que nunca tinha ouvido falar de Kerouac até ter começado a trabalhar no café. E, ela observa, o livro tem as suas falhas: "Às vezes eu o acho um pouco prolixo".

Nos meios acadêmicos, "On the Road" tem uma reputação mista. "Não creio que o livro seja levado a sério pela maioria dos acadêmicos e críticos literários", afirma Bill Savage, professor do departamento de inglês da Universidade Northwestern, na qual dá aulas sobre "On the Road" há duas décadas. "Mesmo assim, os meus alunos sentem uma conexão bastante pessoal com o livro. Os estudantes de graduação são capazes de fato de se identificar com ele porque vivem em um mundo muito marcado pelas mídias, no qual há a Internet, o telefone celular e o iPod. Existem tantas maneiras pelas quais o indivíduo não está de fato no lugar em que se encontra, e Kerouac diz respeito a estar no local exato em que se está".

Porém, alguns alunos rejeitam o livro, taxando-o de ultrapassado. Ann Douglas, uma acadêmica beat que dá aulas sobre o livro há mais de 25 anos na Universidade Columbia, reconhece que os alunos não o aceitam como um "evangelho". "Eles o criticam sob diversos ângulos diferentes, descobrindo, por exemplo, que o autor é condescendente com os mexicanos e as mulheres".

Mas Douglas diz que o seu seminário sobre o movimento Beat conta com um número de candidatos seis vezes maior que o de vagas, e que o livro ainda tem um forte impacto, em parte porque ela dá aos seus alunos a tarefa de escrever um ensaio autobiográfico com o estilo espontâneo que Kerouac tornou famoso.

"Invariavelmente, os alunos criam os melhores textos de suas carreiras", diz ela. "É uma conclamação para deixar de lado o temor quanto ao que as outras pessoas dirão e o que a família espera, e encontrar uma voz que seja realmente aquela do aluno".

Na livraria City Lights Books, um marco literário de São Francisco (ela vende mil cópias de "On the Road" por ano), Lawrence Ferlinghetti, o poeta beat, editor e co-fundador do estabelecimento, demonstra espanto com o sucesso contínuo do livro.

Ferlinghetti, 88, contrasta o trabalho de Kerouac com "Look Homeward, Angel", de Thomas Wolfe, que, segundo ele, "é o tipo de livro que você lê quando tem 18 anos e acha maravilhoso, mas quando o relê aos 35 ou 50 anos, fica embaraçado devido ao estilo exageradamente romântico e a exuberância floreada".

Mas, tendo lido "On the Road" quando o livro foi lançado e ele tinha pouco mais de 30 anos, e o relido no mês passado, Ferlinghetti afirma: "Pode-se dizer que 'On the Road" ainda tem a mesma mágica".

Publicado no UOL Mídia Global.

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