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sexta-feira, 12 de agosto de 2005

Lula sabia

Entrevista publicada na Revista Época (domingo nas bancas):

Primeiro deputado a renunciar no caso do valerioduto conta como o PT pagou com malas de dinheiro pelo apoio do PL a Lula.

Por Thomas Traumann e Gustavo Krieger

Às 13h42 da quinta-feira 11, o ex-deputado e presidente do Partido Liberal, Valdemar Costa Neto, recebeu uma ligação de feliz aniversário do vice-prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (PFL). "Ninguém vai sair bonito desta crise, mas a gente vai sair menos feio", disse Valdemar ao telefone. Pouco mais tarde, atendeu um telefonema do ministro Alfredo Nascimento, cheio de preocupações: "Vai dar tudo certo no final", disse. Minutos depois, Valdemar iniciou sua primeira entrevista desde que renunciou ao mandato, no dia 1º, acusado pelo deputado Roberto Jefferson (PTB) de receber mensalão para defender o governo Lula.

"Recebi dinheiro, sim, mas não os R$ 10,8 milhões que diz o Marcos Valério. Foram R$ 6,5 milhões do caixa dois da campanha de Lula", revelou Valdemar a ÉPOCA. O dinheiro viria de um acordo, fechado em junho de 2002, em que José Dirceu e Delúbio Soares prometeram R$ 10 milhões em troca do apoio do PL. "O Lula estava na sala ao lado. Ele sabia que estávamos negociando números", contou ele. A versão de Valdemar tem algumas contradições, vários pontos obscuros, mas lança luzes sobre como Marcos Valério operava o caixa dois do PT.

"O Lula, o José Dirceu e o Delúbio faziam parte da mesma família. Não dá para crucificar só um", disse Valdemar, na sala da presidência do PL em Brasília, decorada com uma reprodução do Cristo Crucificado de Salvador Dalí. Na noite anterior à entrevista, ele falou com o vice-presidente, José Alencar. Segundo ele, Alencar o aconselhou: "Fala a verdade, Valdemar. Confessa". A seguir trechos da entrevista:

ÉPOCA - Por que o senhor renunciou?

Valdemar Costa Neto - Eu cometi um erro fiscal. Não declarei o dinheiro que recebi do PT. Não tinha motivo para duvidar da origem do dinheiro do PT. Para mim, o PT sempre foi um partido sério, de gente decente. Mas cometi um erro e renunciei para continuar sendo respeitado por meus colegas do partido. A história do PL é ruim, mas é a menos pior.

ÉPOCA - Qual é a história do dinheiro que o senhor recebeu do PT?

Valdemar - Tudo começou nas negociações para fechar o apoio a Lula em 2002, com José Alencar, do PL, como vice. Tivemos muitas reuniões, em Brasília, na casa do José Dirceu. Sempre participavam o (deputado) João Paulo (PT), quase sempre o (ex-secretário-geral do PT) Silvio Pereira, sempre o (ex-tesoureiro do PT) Delúbio Soares, além do José Alencar. Estava tudo indo bem, até que a Justiça aprovou a verticalização (permitindo apenas as coligações com os aliados nacionais). Daí fui ao Zé Dirceu e avisei: "Tudo mudou".

ÉPOCA - Foi aí que o PL pediu dinheiro ao PT?

Valdemar - A questão é que o PL precisava ter 5% dos votos para ter as verbas do fundo partidário. Com a verticalização, as nossas chances de chegar a 5% eram pequenas, porque só poderíamos nos coligar com o PT. Falei para o Zé: "Para isso, preciso de uma estrutura muito maior para segurar meu pessoal". Ele falou: "Mas quanto?". Eu falei: "R$ 15 milhões, R$ 20 milhões".

ÉPOCA - Como se chegou ao acordo?

Valdemar - Foi uma discussão muito grande. No dia 18 de junho de 2002, tive uma reunião com o Dirceu. Ele disse que não tinha jeito de fazer o aporte de dinheiro. Eu respondi: "Então me libera (para fazer outra coligação)". Ele respondeu: "Está liberado". Já estávamos fazendo uma nota conjunta dizendo que a coligação PT-PL não ia sair quando me liga o Zé Alencar. Eu contei a ele que não conseguimos chegar a um número. "Não vou prejudicar nosso pessoal todo em troca de uma aliança", falei. O Zé Alencar disse para eu não assinar a nota conjunta. Daí a 15 minutos, ele ligou e disse que o Lula viria no dia seguinte a Brasília resolver o assunto.

ÉPOCA - Resolveu?

Valdemar - A reunião foi no apartamento do deputado Paulo Rocha (PT). Estavam lá o Lula, o José Alencar, o Dirceu e o Delúbio. O Lula chegou para mim e disse: "Quer dizer então que você é o nosso problema?". "Não posso matar o nosso pessoal", respondi. O Zé Dirceu não queria falar de dinheiro, queria negociar a participação no governo: "Valdemar, vamos governar juntos?". Respondi: "Mas, desse jeito, não vai sobrar ninguém na Câmara para governar junto com vocês". Depois o Lula até falou para o Zé Alencar: Vamos sair porque esta conversa é entre partidos, não entre candidatos". Daí o Delúbio chegou perto de mim e disse: "Vamos conversar".

ÉPOCA - E vocês falaram de números...

Valdemar - O Lula e o Alencar ficaram na sala e fomos para o quarto eu, o Delúbio e o Dirceu. Eu comecei pedindo R$ 20 milhões para levar uns R$ 15 milhões. Daí, ficou aquela discussão. Uma hora, o Zé Alencar entrou e falou: "E aí, já resolveram?". Eles (o PT) achavam que iam arrecadar R$ 40 milhões. Eu falei: "Tira R$ 15 milhões para a gente. É justo". Eles ameaçaram ir embora. O Lula mandou ligar para o (hoje ministro) Patrus Ananias e avisou que, se a conversa não desse certo, ele seria o candidato a vice na chapa. Uma hora, o Dirceu chegou a dizer "acabou". Eles batiam tanto o pé comigo que eu pensei "ô povo firme. Esses vão me pagar rigorosamente em dia". Daí chamei o Zé Dirceu de volta para o quarto. O Zé Alencar veio junto. Falei: "Vamos acertar por R$ 10 milhões". Voltamos para a sala e avisamos: "Está fechado". Lembro ainda que o Zé Alencar falou "peça tudo por dentro" (doação legal).

ÉPOCA - Lula sabia que a conversa no quarto era sobre dinheiro?

Valdemar - Ele sabia. O presidente sabia o que a gente estava negociando. Olha, ele e o Zé Dirceu construíram o PT juntos. O Lula sabia o que o Dirceu estava fazendo. O Lula foi lá para bater o martelo. Tudo que o Zé Dirceu fez foi para construir o partido.

ÉPOCA - O vice-presidente José Alencar falava "tudo por dentro". E o presidente Lula dizia o quê?

Valdemar - Nunca falou. Quando saí, ele me falou: "Então está liquidado o assunto". O Lula foi lá para autorizar a operação. E não vejo nada demais. O que ninguém esperava é que desse essa lambança.

ÉPOCA - Quando vocês receberam?

Valdemar - Na campanha, nem um centavo. Vi que a coisa estava ruim quando um dia fui a uma reunião no comitê de campanha e vi o Duda Mendonça cabisbaixo (conta rindo). Ele reclamava: "Eles não pagam meu pessoal. E eu não consigo criar sem dinheiro". Imagine se eu ia receber, quando atrasavam até para o Duda? Eu ia para as reuniões, reclamava com o Zé Dirceu, com o Delúbio. O Delúbio dizia: "Valdemar, eu vou pagar, você pode assumir com os deputados, eu vou atrasar, mas pago". Eu não acreditei. Eu ia para o Delúbio, ia para o Zé Dirceu, e dizia: "A gente não está vencendo pagar as contas". Eles receberam R$ 40 milhões. Foram R$ 20 milhões do Lula e R$ 20 milhões do PT, mas misturaram as contas dos Estados com a nacional. Fizeram uma bagunça.

ÉPOCA - Como o PL reagiu?

Valdemar - Os deputados me pressionavam. Então, veio a eleição e o PL teve só 4,7% dos votos. Isso me arrebentou. Só conseguimos entrar no Fundo Partidário porque fiz a fusão com o PGT e o PST. Porque não tive a estrutura que me prometeram. Eu procurava o Delúbio e o Zé Dirceu. Falei com o Zé Alencar e ele me disse que estava fazendo uma doação oficial, de R$ 2 milhões. Quando fui tentar esse dinheiro para o PL, o Delúbio falou: "Xii, já gastei por conta". Achei que eles podiam ter facilidade. Iam ganhar a eleição. Decidi ficar quieto. E nunca pensei que eles iam ter dificuldade em conseguir o dinheiro.

ÉPOCA - E depois da eleição, o dinheiro veio?

Valdemar - Eu fiquei cobrando. Eles tiveram uma mudança grande comigo. Houve um boato de que "o PL já estava acertado". E a bancada me pressionava pensando que eu tinha embolsado algum. Tive de colocar uns dois deputados no pau.

ÉPOCA - Quando o Delúbio lhe disse que pagaria essas dívidas de campanha?

Valdemar - O Delúbio chegou a falar para mim que ia fazer um empréstimo. Eu perguntei: "Mas emprestar como, Delúbio?" Aí foi que eu fiquei mais apavorado. Ele disse: "Eu vou dar um jeito. Você fique sossegado". Isso era no começo do governo Lula. Não demorou muito. Em fevereiro de 2003, ele falou que ia me dar a primeira parcela. Falou para eu mandar meu pessoal até a SMP&B, em Belo Horizonte, para pegar o dinheiro. Perguntei quanto era. Ele disse: "Eu não sei, vai lá". Mandei o Jacinto (Lamas, tesoureiro do PL). Chegou lá, o Jacinto me liga: "Não é dinheiro, me deram um envelope". Eu falei: "Nem abre" e liguei para o Delúbio. Falei: "Delúbio, é um envelope!". Ele falou: "Não tem problema, pode trazer". Mandei o Jacinto levar o envelope fechado para São Paulo, até o flat onde eu morava. Quando abri o envelope, eram cheques. O total era de R$ 800 mil. Todos cheques da SMP&B, para uma empresa chamada Garanhuns. Eu liguei de novo para o Delúbio. Ele falou: "Fica tranqüilo, que eu vou mandar buscar o cheque aí". Passa uma hora, vem um segurança, desse pessoal que mexe com dinheiro, e falou assim: "Vim resgatar". E me deixou o dinheiro. Dinheiro vivo, cash. Estava numa daquelas malinhas com rodinhas, de levar no aeroporto. Chamei alguns fornecedores de campanha e eles pegaram todo o dinheiro.

ÉPOCA - Esse procedimento, de pegar cheques na SMP&B e trocar por dinheiro em São Paulo, se repetiu?

Valdemar - Duas ou três vezes. O sujeito chegava, colocava o dinheiro na mesa e pedia que eu conferisse. Separava direitinho nos pacotes.

ÉPOCA - E esse dinheiro não ia para os deputados do PL?

Valdemar - Nunca. Apenas para os fornecedores de campanha.

ÉPOCA - O senhor diz que pagava as contas. Mas não pedia nenhum recibo ou prova? Ele contava o dinheiro e ia embora?

Valdemar - Não. O camarada falava: "Vou tirar nota fiscal". Eu dizia: "Não tira, não". Eles me perguntavam o motivo, se o dinheiro era do PT. Eu achava que o dinheiro era do PT, mas não estava oficializado.

ÉPOCA - Um esquema de pagamentos como esse não lhe causou nenhuma desconfiança?

Valdemar - Eu não gostei, e fiquei preocupado. Mas só repetimos esse procedimento de mandar o Jacinto para Minas Gerais umas poucas vezes. Totalizou R$ 3,2 milhões, sempre em nome da Garanhuns. Depois, fui falar com o Delúbio. Porque eu esperava que o cheque fosse nominal ao PL e era para a Garanhuns.

ÉPOCA - Mas o senhor não pensou em checar que empresa era essa que lhe repassava tanto dinheiro?

Valdemar - Não. Agora que eu vi, no depoimento do Valério na Polícia Federal, que havia um contrato entre a Garanhuns e a SMP&B. Mas eu procurei o Delúbio e falei: "Eu preciso oficializar este dinheiro. Senão, vou ficar na mão dos meus fornecedores. E deixa eu te pedir uma coisa. Me dá em dinheiro. Não me dá mais cheque não".

ÉPOCA - O Delúbio perguntou por que o senhor não queria cheques?

Valdemar - Não. Quando você está no governo, você é dono do mundo. Você não tem preocupação com nada. Eu disse para ele: "Você está me mandando em cheque e eu tenho em dinheiro. Pára com isto. Me tira desse negócio lá de Minas Gerais, que está ficando ruim para mim". Aí, eles inventaram aquele negócio do Banco Rural. Mas foi só em setembro. De abril a setembro de 2003, não recebi nada.

ÉPOCA - O dinheiro era sempre entregue na SMP&B ou no Banco Rural?

Valdemar - Não, teve dinheiro que eles entregaram para mim. Entregaram para o Jacinto em Brasília... O Jacinto chegou a receber em hotéis. Uma vez, em São Paulo, mandaram ele pegar o dinheiro num restaurante. Era sempre o Delúbio quem me avisava que o dinheiro estava liberado.

ÉPOCA - Em cheque ou dinheiro, o senhor não achou no mínimo esquisito que os pagamentos do PT viessem de uma empresa privada?

Valdemar - Não achei esquisito. Palavra de honra. Porque o cheque era de uma empresa grande, a SMP&B. Se fosse uma empresa da qual eu nunca tivesse ouvido falar, eu ia até ter preocupação de pegar. Como era da SMP&B, não vi problema. Até porque o Delúbio tinha me apresentado o Marcos Valério.

ÉPOCA - Como foi isso?

Valdemar - O Delúbio trouxe o Marcos Valério, mas não falou nada desse dinheiro. Disse: "Este aqui é o Marcos, trabalha para a gente e quer fazer um trabalho para o PL". Isso aconteceu logo depois de o Delúbio me pagar aquela primeira parcela. O Valério queria um contrato em torno de R$ 250 mil por mês para cuidar de todo o marketing do PL. Eu contratei um estudo para mudar a marca do PL. Paguei, mas não pedi mais nenhum trabalho para ele. Achei o serviço muito ruim.

ÉPOCA - Quanto o senhor recebeu por esse esquema do Marcos Valério?

Valdemar - Foram R$ 6,5 milhões. Não chegou aos R$ 10,8 milhões que estão falando. Estão botando R$ 4 milhões a mais na minha conta. Dinheiro que foi repassado para a Garanhuns e um outro cheque, que não é nosso.

ÉPOCA - E para quem foi o dinheiro?

Valdemar - Aí é que está. Da Garanhuns, não vai ser difícil descobrir. A CPI já pediu para abrir as contas da Garanhuns. Vai aparecer alguma coisa. Eles podem ter dado outra direção ao dinheiro.

ÉPOCA - Quando os pagamentos passaram a ser feitos no Banco Rural?

Valdemar - O Delúbio falou: "Vou mandar o dinheiro para Brasília. Pega no Banco Rural". Isso me atrapalhava, porque os credores do PL estão em São Paulo. O Jacinto Lamas deixava o dinheiro comigo, e os credores iam receber lá em casa. Primeiro no hotel Academia de Tênis, onde eu morava. Depois, na minha casa, em Brasília.

ÉPOCA - Mesmo com todas as denúncias sobre o mensalão, o senhor insiste em que nunca repassou o dinheiro aos deputados do PL.

Valdemar - Nunca. Foi só para pagar as dívidas da campanha de 2002. E o pagamento acabou em janeiro de 2004, quando o PT quitou a dívida que fizemos na campanha. Não cometi a irresponsabilidade de envolver os deputados do PL.

ÉPOCA - Esse dinheiro não pagou a campanha dos deputados do PL?

Valdemar - Não. Foi tudo gasto na campanha presidencial de 2002.

ÉPOCA - Como o senhor espera provar isso sem ter nenhuma nota fiscal dos fornecedores?

Valdemar - Estou procurando o pessoal. Acho que eu consigo comprovar tudo isso. Os fornecedores não têm como não me atender. Se não me atenderem, na próxima campanha não faço mais material com eles. Estou enfrentando uma confusão, porque ninguém pagou imposto quando recebeu.

ÉPOCA - O senhor ficou com parte do dinheiro?

Valdemar - Nenhum centavo. Só fiquei com as reclamações.

ÉPOCA - Suas contas eram pagas pelo PL, como denunciou sua ex-mulher Maria Cristina Mendes Caldeira?

Valdemar - Não. Tanto é que pedi ao TCU que investigasse. Nós nunca fizemos nada com verba pública, e sim com a contribuição dos deputados do PL, que dá R$ 700 mil por ano, que eu uso para fazer as reuniões, para pagar aluguel da casa. Tenho tudo regularizado e documentado. A Maria Cristina precisa de cuidados médicos. Eu não quero falar porque ela já falou tanta coisa de mim que eu não quero nem reproduzir. Não falo de mulher. É mal.

ÉPOCA - Delúbio Soares diz ter montado o caixa dois sozinho. É possível que o ex-ministro José Dirceu não soubesse do que estava acontecendo?

Valdemar - O Zé Dirceu sempre comandou o PT. O Zé e o Lula. Eu cheguei a cobrar o Zé diversas vezes no Planalto. Falei: "Zé, meu dinheiro está vindo pingado, em conta-gotas". Falei que eu queria receber tudo de uma vez. O Zé disse: "Calma que o Delúbio está providenciando o dinheiro para te pagar. Ele vai arrumar o dinheiro e resolver tudo".

ÉPOCA - Ele sabia o que o Delúbio estava fazendo?

Valdemar - É gente deles. Esse pessoal construiu o PT junto. Delúbio, Lula e José Dirceu são a mesma família. Por que, agora, na desgraça, só um vai pagar?. Tenho certeza de que o Dirceu nunca fez nada que o presidente não aprovasse.

ÉPOCA - Como era seu relacionamento com o Planalto?

Valdemar - Tive um problema político. Quando o governo começou, a imprensa pressionava muito, dizendo que o governo não estava fazendo nada. Aí, resolveram fazer a reforma da Previdência. Numa reunião de líderes eu falei para o Zé Dirceu: "Eu tenho um problema. Eu sou contra o subteto para os juízes". E apresentei um destaque em plenário contra a proposta do governo. O Zé Dirceu me falou: "Você vai comprar uma briga com o governo". Mas eu agüentei firme e o governo teve de me atender. O Zé Dirceu me deu uma geladeira de um ano. E começou a empurrar deputados para o PTB e o PP. Eu não quis comprar a briga. Passei um ano no sal, quieto. O Zé Dirceu escolheu operar com o Roberto Jefferson. O Jefferson era o cara que estava sempre com eles, que andava com o Lula. Eles entraram nesta porque quiseram. Jefferson é um sujeito conhecido na praça.

ÉPOCA - Conhecido como?

Valdemar - Conhecido. Como um camarada mal-intencionado, perigoso. Para indicar diretor de estatal... Ele diz que indicava diretores de estatais para arrecadar dinheiro para o PTB. Em dois anos de governo Lula, o PTB arrecadou oficialmente R$ 200 mil. Ele diz que arrecadava R$ 400 mil por mês em uma estatal. Onde ele punha esse dinheiro? Ia para o bolso dele. Eles (o governo Lula) acabaram como tinham de acabar. Em Brasília, você é obrigado a conviver com pessoas de que você não gosta. Mas não precisa colocar dentro de sua casa. Eles escolheram conviver com um cidadão assim. Eles indicavam aos deputados para ir para o PTB. Tem de perguntar para eles por que esta preferência.

ÉPOCA - O líder de sua bancada, Sandro Mabel, enfrenta um processo de cassação, acusado de tentar comprar a filiação da deputada Raquel Teixeira (PSDB-GO). Este não é um sinal do mensalão?

Valdemar - Esse episódio foi uma maldade, uma questão pessoal. É a palavra da deputada contra a dele. O Sandro jamais oferecia dinheiro a qualquer pessoa. Ele é um camarada miserável, pão-duro. E ninguém ia oferecer R$ 1 milhão para ganhar uma deputada. Foi um desentendimento entre eles. E a Raquel, que se disse chocada com a oferta, três meses depois foi pedir um emprego na Mabel (empresa do deputado). E, pior, o Sandro deu.

ÉPOCA - O senhor continua negando que o PL tenha tentado um "acordão" para livrar o partido e o deputado Roberto Jefferson da cassação?

Valdemar - O Roberto Jefferson deu a entrevista para a Folha de S.Paulo falando no mensalão numa segunda-feira. Na terça, eu entrei com o processo de cassação contra ele. E ele foi covarde. No mesmo dia, mandou um deputado procurar o Sandro Mabel. Ele se ofereceu para assinar um documento desmentindo as acusações contra o PL, se eu retirasse o pedido de cassação. Eu recusei. Agora, uma semana antes de eu renunciar, houve uma pressão violenta de muitos deputados para que eu retirasse o processo.

ÉPOCA - Como foi seu acordo para apoiar Marta Suplicy (PT) em São Paulo, em 2004? O presidente Lula entrou pessoalmente nisso?

Valdemar - O Lula fez um jantar. Porque ele sabia que não íamos apoiar a Marta. Nós não conseguíamos tocar nosso ministério (Transportes). Nosso ministério estava muito ruim, a estrutura não era nossa. Eu falei com o Lula que a gente não tinha liberdade. Mudamos alguns cargos e a coisa melhorou. Eu bati o pé até o final para liberar o nosso ministério. O PT queria dizer em que estradas era para colocar dinheiro.

ÉPOCA - Na campanha para a prefeitura de São Paulo, também houve oferta de dinheiro?

Valdemar - Deram material para a gente em São Paulo. Nosso pessoal recebeu material. E, mesmo assim, não pagavam tudo. Eu pedi ao Delúbio um show do Zezé Di Camargo e Luciano em apoio a meu candidato em Mogi das Cruzes. O Delúbio chamou os dois e, na hora do show, queria que eu pagasse a conta! Eu falei: "Nem morto", e até hoje não paguei.

ÉPOCA - O ministro dos Transportes, Anderson Adauto, mantinha uma relação muito próxima com Valério.

Valdemar - Ele andava por todo lugar. Uma vez, Valério me fez um pedido. Um amigo dele tinha perdido uma concorrência para reformar uma estrada. Ele queria que o cara que ganhou cedesse uma parte para ele. Falou comigo umas três vezes. Mas não deu para ajudar.

ÉPOCA - No governo, todo mundo sabia que Valério era tão forte?

Valdemar - Quem era o tesoureiro do PT? Delúbio. O camarada que estava com ele tem força.

ÉPOCA - O senhor acha que os eleitores vão acreditar que esse dinheiro todo era para caixa dois de campanha?

Valdemar - Cada um explica o seu. No meu caso, vou ter como provar.

ÉPOCA - Esta crise pode derrubar o presidente Lula?

Valdemar - Não quero que o Lula se dê mal. Mas tem de ver como as coisas vão estar em outubro, novembro. Esta crise só piora. Tem de ver as explicações que eles vão dar."

Do Blog do Noblat (link nos Favoritos do RA).

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