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domingo, 20 de abril de 2008

Bastidores de um disco histórico


O escritor Ruy Castro, em longa matéria na revista Brasileiros, disseca a gravação de um clássico da bossa nova, o disco que revelaria ao mundo a música forjada nos apartamentos, nos bares e nas praias da zona sul do Rio de Janeiro no final dos anos 1950.

Ao texto original - publicado em seu livro "Chega de Saudade: A história e as histórias da Bossa Nova" (1990) -, Castro adicionou detalhes saborosos do que aconteceu nas históricas sessões de gravação do disco. A seguir, os parágrafos iniciais (editados pelo RA) da matéria:

Nos dias 18 e 19 de março de 1963, dez pessoas - oito homens e duas mulheres - reuniram-se no A&R, um estúdio de gravação na Rua 48 Oeste, quase esquina com a Sexta Avenida, em Nova York, e criaram o álbum - LP, como então se dizia - que, para muitos, é o maior da bossa nova em todos os tempos. Ou o maior LP de bossa nova gravado fora do Brasil.

Claro que, enquanto o estavam gravando, eles não imaginavam o tamanho da façanha, e nem que o disco seria um divisor de águas na vida de todos os envolvidos. Alguns talvez apenas desconfiassem disso.

Esses homens e mulheres eram o sax tenor americano Stan Getz, 36 anos; o pianista e compositor brasileiro Antônio Carlos Jobim, também 36 anos; o violonista e cantor João Gilberto, 32 anos; o contrabaixista Tião Neto, também 32 anos; o baterista Milton Banana, quase 28 anos; a cantora Astrud Gilberto, esposa de João Gilberto, quase 23 anos, e Monica Getz, esposa de Stan Getz.

Os outros três homens no A&R eram o engenheiro de gravação Phil Ramone, 29 anos, dono do estúdio: o engenheiro de som Val Valentin, da mesma idade, e o produtor do disco Creed Taylor, 33 anos, da Verve Records. E o disco que entraria para a história da música é:


Mas havia também uma outra pessoa presente no estúdio A&R, o fotógrafo americano David Drew Zingg, 40 anos, autor da foto da contracapa do disco e das fotos da matéria da revista Brasileiros. É dele este registro histórico:


Tião Neto, Tom Jobim, Stan Getz, João Gilberto e Milton Banana

Sobre a frase de João Gilberto dirigida a Stan Getz que serve de manchete à capa de Brasileiros, Ruy Castro conta o seguinte:

João Gilberto não se satisfazia com a emissão (o sopro) de Getz, que achava muito enfática para a delicadeza da bossa nova. Por isso, a todo o instante interrompia a gravação, para obrigá-lo a começar de novo. Getz não entendia e João dizia entre dentes para Jobim, como quem mastigasse as sílabas:

"Tom, diga a esse gringo que ele é muito burro."

O americano perguntava a Tom o que João dissera, e Tom botava panos quentes:

"Ele está dizendo que é uma honra gravar com você."

"Engraçado", resmungava Getz, "pelo tom de voz, não parece ser isso que ele disse."

Mesmo assim, nesse clima pouco amigável, o quinteto conseguiu concluir a gravação das seguintes músicas:

1. Garota de Ipanema (Tom Jobim - Vinicius de Moraes) - Participação: Astrud Gilberto

2. Doralice (Antônio Almeida - Dorival Caymmi)

3. Para machucar meu coração (Ary Barroso)

4. Desafinado (Newton Mendonça - Tom Jobim)

5. Corcovado (Tom Jobim) - Participação: Astrud Gilberto

6. Só danço samba (Tom Jobim - Vinicius de Moraes)

7. O grande amor (Tom Jobim - Vinicius de Moraes)

8. Vivo sonhando (Tom Jobim)

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quarta-feira, 16 de abril de 2008

João Gilberto de volta aos palcos


Do Portal G1

Nos 50 anos da bossa nova, apenas um nome faltava para completar as comemorações que se espalham pelo país. O cantor e violonista João Gilberto confirmou oito apresentações para este ano, a partir de junho, para celebrar o gênero que ajudou a fundar, com seu cantar meio falado, meio baixinho, e seu jeito novo de tocar violão.

"João Gilberto não dá um show, dá um recital", diz Zuza Homem de Mello, crítico e historiador de música, explicando que o artista baiano de 76 anos está longe das parafernálias que os artistas usam em suas apresentações.

De fato, basta um banquinho e um violão, praticamente sinônimos de bossa nova, para o cenário de um "recital" de João Gilberto.

"Ele prescinde de tudo o que é efeito. Prescinde de tudo o que é necessário para mascarar a essência do espetáculo que é a música propriamente dita. O deslumbramento de suas platéias sempre lotadas vem em grande parte das sutilezas e detalhes com que ele cria e recria, de forma obsessiva, canções que o acompanharam por toda sua carreira, como "Doralice", "Corcovado", "Insensatez", "O pato" e "Samba de uma nota só".


Notícia do ano

Para o crítico e produtor Nelson Motta (acima, na AEDB em Resende), o anúncio dos shows de João Gilberto "é a melhor notícia para a música brasileira neste ano".

"Ele é um grande mestre, continua insuperável. Nesse gênero que ele inventou, ele é único, nunca houve nada melhor", disse Motta, autor do best-seller "Noites tropicais".

Apesar das diversas contribuições para o gênero que refinou a música popular brasileira, incluindo o maestro Tom Jobim e o poeta Vinicius de Moraes, nada superou a "grande novidade" que João Gilberto trouxe com seu samba sincopado no violão e jeito único de cantar.

"Ele inventou um novo gênero musical. Não existe bossa nova sem a batida de violão do João Gilberto. Ele criou todo um mundo de possibilidades musicais", disse Motta.

Para o especialista, a prova da genialidade de João Gilberto está nas regravações dos sucessos "Chega de saudade" e "Desafinado" que ele fez em seu último disco de estúdio, "João voz e violão" (2000), que seriam muito superiores às suas primeiras versões, "sob todos os aspectos, incluindo voz".

Excêntrico

A fama de gênio vem junto com a de excêntrico. É perfeccionista nas gravações e shows, além de viver recluso no Rio de Janeiro, sem nunca dar entrevistas ou frequentar a cena musical da cidade. É como um ermitão, nas palavras de Zuza.

Embora solitário, João Gilberto mantém contato com os amigos por telefone, "e está perfeitamente ciente de tudo o que acontece, lê jornal, vê TV", diz Motta.

O primeiro show do ano será em 22 de junho no Carnegie Hall, em Nova York. Depois, João Gilberto se apresenta nos dias 14 e 15 de agosto no Auditório Ibirapuera, em São Paulo; dia 24 de agosto, no Teatro Municipal do Rio; e dia 5 de setembro, no Teatro Castro Alves, em Salvador. Haverá ainda três shows no Japão.

Matéria editada pelo RA.

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