Já estão à venda os novos cartões-postais Resende de ORo

quinta-feira, 2 de junho de 2005

A loja da esquina

Pela quinta vez assisto "Mensagem pra você" (You've got mail), da roteirista e diretora Nora Ephron. Já tinha visto no cinema (uma vez), em vídeo (duas vezes), em DVD (uma vez) e, agora, acabei de rever no Universal Channel, da Sky. O filme, lançado em 1998, não é nenhuma maravilha da sétima arte e nem de longe se compara a qualquer obra do Woody Allen, mesmo que o cenário seja também Nova York. Mas é muito bom de ver. A história, para quem não sabe ou não se lembra, é a da jovem (e bela) proprietária de uma antiga livraria (The Shop Around the Corner, algo como A Loja da Esquina), que vê o seu negócio ruir depois da inauguração de uma megastore (a Fox Books) do outro lado da rua. Acontece que a vítima em questão (Meg Ryan, na pele da doce Kathleen Kelly) vem trocando e-mails com um desconhecido pelo qual acabará se apaixonando, sem imaginar ser ele justamente o seu algoz, o milionário Joe Fox (interpretado por Tom Hanks), dono da Fox Books. Absolutamente nada a ver com a anunciada venda da Intervalo Cultural (foto acima), exceto a tristeza diante da possibilidade de livros, mais uma vez, serem substituídos por sapatos ou medicamentos. Não cabe também analisar as razões do aparente fracasso, que podem ser várias e, algumas, inexplicáveis. Mas uma grande reportagem sobre o amor aos livros, publicada no caderno Sinapse da Folha de São Paulo do último domingo, traz uma revelação esclarecedora sobre o hábito da leitura no Brasil: para quem pensa que os brasileiros lêem muito pouco, uma recente estatística nos coloca em segundo lugar entre os países de toda a América que mais consomem livros, atrás apenas dos Estados Unidos. O grande problema é que este universo de leitores representa apenas 16% de nossa população, ou seja, uma pequena minoria espalhada por todas as cidades que possuem livrarias. E Resende tem três, que poderiam continuar abertas para sempre. De volta à ficção, a trama segue mostrando a progressiva decadência da pequena Loja da Esquina, incapaz de concorrer com o enorme estoque, com as amplas instalações e com os reduzidos preços do vizinho predador, tudo embalado por uma trilha sonora de arrepiar o público de meia-idade (Harry Nilsson, Carole King, Louis Armstrong, Randy Newman e Joni Mitchell, entre outros). Depois de promover uma passeata contra a chegada da grande rival e de atacar o desalmado Joe Fox pela tevê, só resta uma alternativa a Kathleen diante da irreversível queda nas vendas: fechar a sua pequena, charmosa e tradicional livraria. No fim do filme, como era de se esperar, ela descobre a identidade secreta do namorado virtual e, aí, é impossível resistir à emoção do encontro dos dois no Riverside Park, ao som de "Somewere over the rainbow", cantada por Harry Nilsson. Principalmente quando ele diz a ela: "não chore, shopgirl (garota da loja, o apelido de Kathleen na Internet), não chore", antes do único e definitivo beijo. Contado assim é bem piegas, digno de um autêntico filme B. Mas em se tratando de Tom Hanks e Meg Ryan – numa química perfeita, num cenário mais que perfeito, com músicas que marcaram toda uma geração –, a coisa muda de figura. Dá uma vontade enorme de ver (viver) de novo!

Share

1 Comments:

At 3/6/05 09:58, Anonymous Acácio Alves Pinto said...

Ôi, Otacílio.Palmas para você pelo bem arranjado (e bem escrito texto, onde V.compara (e deplora) as duas ocasiões em que a cultura sai perdendo. V. tem toda razão. Não importa que seja em Resende ou Nova Iorque que isso aconteça (poderia ser em Monte Carmelo), a humanidade vai sempre ficando orfã culturalmente. And so life goes by. (Gostou do inglês?). Abraços para todos. Acácio.

 

Postar um comentário

<< Home