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quarta-feira, 11 de junho de 2008

Capas deram imagem à Bossa Nova

Do UOL Música

A Bossa Nova não foi só uma revolução musical. Foi também a primeira revolução sócio-cultural do Brasil moderno, acompanhando as evoluções políticas e econômicas do fim dos anos 50. Criada e executada por jovens cheios de vontade e talento e conectados às tendências mundiais da época, a bossa também propôs inovações conceituais e, muito fortemente, estéticas. Quando se olhava uma capa em uma loja de discos na época da bossa, sabia-se imediatamente que ali estava um disco moderno, com uma capa tão moderna quanto a música que se continha ali dentro.

Já em 1967, no ensaio "Balanço da Bossa Nova", o maestro Júlio Medaglia escreveu:

"Uma das revoluções propostas pela BN foi a apresentação gráfica dos discos. Aquelas tão famosas fotos posadas e tremendamente retocadas, de pessoas, de flores, ou de pôr-do-sol, e mil outras ilustrações simbólicas, relacionadas com motivos ou temas de melodias constantes da gravação, foram substituídas pela mais discreta motivação ilustrativa. Não raro apresenta-se um LP apenas com uma forma geométrica ou abstrata. Abandonando-se o excesso de cores, passou-se ao uso comum do branco e preto; às vezes, apenas um perfil ou o negativo de uma foto num fundo branco ou em alto-contraste - um dos primeiros e expressivos exemplos dessa linha foi a capa do LP de João Gilberto, 'O Amor, o Sorriso e a Flor', idealizada por César Gomes Villela. Fez-se inúmeras vezes o uso de colagens, assim como o de montagens gráficas e fotográficas."

Era uma tendência mundial. Havia, por exemplo, as capas da gravadora de jazz Blue Note, que se tornaram históricas na década de 50 por sua modernidade e elegância. Fotos poéticas, fontes feitas à mão, design chamativo eram as palavras de ordem de tudo que era novo e instigante. Uma das primeiras capas a abraçar essa idéia de ousadia e roubar as atenções por suas cores, design, foto estilizada era a da estréia de Carlos Lyra, o disco "Bossa Nova", de 1959. No mesmo ano, saía também "Ooooooh! Norma", de Norma Bengell, escandalosa por mostrar a atriz seminua, com sua curta roupa preta se misturando com o fundo, com fontes lascivas por cima.


Mas talvez a mais importante para a definição das estéticas que seriam para sempre associadas à bossa nova tenha sido a marcante capa de "O Amor, o Sorriso e a Flor", segundo disco de João Gilberto, de 1960. Em preto e branco, com uma foto estilizadíssima do cantor, com fontes minimalistas espalhadas por espaços em branco, foi o impulso definitivo para que todas as gravadoras percebessem a importância de mostrar em suas capas que estavam sintonizadas com o público jovem e com aquele som atual. De repente, aquela estética se tornou o novo padrão para aquela nova música: alguns dos mais importantes discos aumentavam sua importância com suas capas históricas.


O mais importante dos capistas da época era César Villela, que começou criando capas ousadas (como a de Norma Bengell) na gravadora Odeon. Com o surgimento da bossa nova, o artista gráfico viu a oportunidade perfeita para liberar ainda mais sua criatividade. Com a capa do segundo disco de João Gilberto, estava lançada a estética que passaria imediatamente a ser relacionada à bossa, cheia de minimalismo e leveza, com design angular, fontes modernistas, fotos estilizadas.




Seguindo à risca a mesma estética, vieram por exemplo o segundo disco do Tamba Trio, "Avanço", em 1963, o disco de 1964 da cantora Dóris Monteiro, e "O Compositor e o Cantor", de Marcos Valle, em 1965. E, ainda em 1963, o próprio César teve a oportunidade de utilizar e reutilizar a estética que havia criado, quando foi convidado a criar todo o conceito visual da gravadora Elenco, que lançaria os discos de estréia de Nara Leão, Tom Jobim e Vinicius de Moraes, entre outros. Ali, em parceria com o fotógrafo Chico Pereira, criou capas históricas, utilizando-se do efeito fotográfico alto contraste sobre fotos em preto e branco, sempre com pequenos detalhes em vermelho por cima.


Já a gravadora Forma, criada pelo então jovem produtor Roberto Quartin, surgiu com a proposta de ser a maior, melhor, mais chique, mais caprichosa e mais elegante gravadora de sua época. E ninguém pode duvidar que conseguiu, já que lançou discos como o famoso e indispensável "Coisas", de Moacir Santos, os "Afro-Sambas" de Baden Powell e Vinicius de Moraes e várias outras pérolas de Eumir Deodato, Bossa 3, Luiz Carlos Vinhas e outros instrumentistas pouco conhecidos - mas essenciais - da época. E, é claro, Quartin sabia que a imagem era importante. Assim, a Forma chegava propondo novas estéticas, com capas de luxo ilustradas por pinturas a óleo.


A partir de 1964, quando acontece o nascimento de uma nova geração da bossa nova, com artistas como Marcos Valle, Edu Lobo, Francis Hime, todas aquelas ousadias estéticas já estavam assimiladas e seguiam novos caminhos, como a da singela capa de "Wanda Vagamente", da Wanda Sá, que com uma simples foto e suas fontes na diagonal, transmite todo o espírito de paz e empolgação juvenil do disco.




No mesmo movimento, vinham as capas dos discos de jazz que aconteciam como conseqüência da explosão da bossa como música moderna. "O Som", disco de Meirelles e os Copa 5 de 1964, não deve nada a nenhuma capa de disco de jazz lançado no exterior na mesma época. As colagens modernistas da capa do segundo disco do Zimbo Trio, de 1965, impressionam até hoje por sua elegância e contemporaneidade.




E até a estréia de Caetano Veloso e Gal Costa, em disco dividido pelos dois em 1967, "Domingo", ainda carregava sotaques daquela estética. Natural, já que ambos estreavam em disco como discípulos de João Gilberto, cantando baixinho canções delicadas com arranjos acústicos.

Matéria editada pelo RA.

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